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Ano Internacional da Química – Desafios

12 de janeiro de 2011 1 comentário
A IUPAC e a UNESCO decidiram declarar 2011 como a Ano Internacional da Químicapara celebrar as realizações desta ciência e as suas contribuições para o progresso e bem-estar da humanidade. Mas o que é ou o que será o Ano Internacional da Química?

Procura-se melhorar a compreensão e valorização da Química pelo público em geral, reforçar a cooperação internacional entre instituições que se ocupam da Química, promover o papel da Química para a resolução dos desafios atuais e intensificar o interesse e mobilização dos jovens em torno da disciplina. Papel difícil levando-se em consideração o atual estágio da Química nas instituições de ensino (principalmente as de ensino básico – Fundamental II e Médio). Como levar a Química para quem sempre questiona: “Pra que serve a Química?”. Qual a importância desta matéria no convívio social?

O ano de 2011 comemora-se o primeiro centenário da atribuição do Prêmio Nobel de Química a Marie Sklodowska Curie, a Madame Curie, em reconhecimento do seu notável trabalho que conduziu à descoberta do rádio e do polônio e que tem inspirado alunos, em especial mulheres, a fazer da Química a sua opção profissional.
A importância da Química é universalmente reconhecida, pois basta olhar para nós próprios e à nossa volta para constatar que era impossível viver sem a Química. O “mundo gira” movido pela energia obtida em processos químicos e os organismos “mexem” à custa da energia obtida em processos metabólicos cujas reacções são tipicamente reacções químicas. A compreensão dos processos bioquímicos, da química dos seres vivos, só é possível depois de se conhecer a constituição desses seres, a estrutura das complexas moléculas dos seus organismos e o mecanismo das suas reacções. 

Tudo isto é trabalhos dos químicos, bioquímicos e biólogos. Para alimentar uma população sempre crescente foi preciso produzir novos fertilizantes, captando o azoto da atmosfera na síntese do amoníaco, dominar a técnica do frio (novos e inofensivos CFC), controlar as pragas e doenças das plantas. Foi preciso fabricar novos materiais, com melhores propriedades e maior abundância, para serem acessíveis a todas as camadas sociais, como é caso da seda artificial e outros produtos têxteis.

O aroma, o gosto, a cor e outras delícias com que a Natureza nos contempla são o resultado da presença de moléculas com estruturas curiosas que os químicos descobriram e foram depois também capazes de criar.


Quando a doença bate à porta, que seria de nós sem os medicamentos? Muitos são sintetizados, outros extraídos da Natureza, mas em todos eles foi essencial a mão do químico. Sucede, porém, que os recursos naturais de que têm feito mover o mundo (o petróleo, o carvão e o gás natural) se vão esgotando e é tempo de devolver à Natureza aquilo que lhe fomos tirando e que demorou milhões de anos a produzir. Esforços são feitos para praticar uma “química verde” (Química Ambiental), uma química que substitua processos químicos danosos para o ambiente por processos benignos e sustentáveis.

Abrem-se atualmente novas oportunidades para os jovens seguirem carreiras baseadas na química, havendo boas perspectivas futuras no domínio da química farmacêutica, da biotecnologia, da síntese de novos materiais, das tecnologias de aproveitamento de energia, da química ambiental, da nanotecnologia e da química em microescala. O projeto Xperimenta, da Associação de Produtores de Petroquímica na Europa e European Schoolnet, salienta a importância da Química Orgânica: “os alunos deviam concentrar-se especialmente na química orgânica, que é a base de toda a química”“a maior parte do mercado da química industrial está relacionada com a química orgânica”.

Diversas são as possibilidades de trabalho para quem está no ramo da Química, a seguir Corrêa destaca alguns desafios para um jovem tornar-se um Químico no Futuro:
Nanotecnologia
As nanopartículas são partículas sólidas com uma ou mais dimensões da ordem de 10 a 1000 nm (nanômetros) e apresentam propriedades novas e diferentes do material no seu conjunto. Os nanomateriais resultam do crescimento das nanopartículas, como os nanotubos de carbono, com diâmetro de cerca de 3 nm apresentam propriedades diferentes dos outros alótropos de carbono, como a grafite e o fulereno.
As propriedades magnéticas, eléctricas, térmicas e mecânicas dos materiais podem ser modificadas por introdução de nanopartículas adequadas. As suas aplicações são muito variadas, tendo até sido utilizadas ligadas a moléculas para regular a entrada de medicamentos no organismo e restringir o seu acesso a determinados locais. Estas partículas podem obter-se por reacções químicas entre partículas (iões e moléculas) que se vão combinando até se formarem agregados de dimensão suficiente. Podem, também obter-se de materiais já polimerizados, como proteínas, polissacáridos e polímeros de síntese. Os químicos, com os seus conhecimentos sobre colóides e reacções de polimerização, estão certamente habilitados a intervir no fabrico das nanopartículas por processos húmidos.
Agroquímica
No domínio da agricultura o químico encontra um vasto terreno para a sua atividade, na síntese de novos fertilizantes, como os “adubos inteligentes”, que só libertem azoto à medida que a planta necessita e de pesticidas mais seletivos, como os “pesticidas verdes”, eficientes no combate a pragas mas inócuos em relação a insectos úteis e ao homem. É um campo imenso que se abre aos futuros químicos.
Aproveitamento da energia solar
Os combustíveis fósseis que vimos utilizando são o resultado da energia solar armazenada durante milhões de anos à superfície da Terra. O maior desafio deste século será a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia mais sustentáveis e menos poluentes, em especial di-hidrogênio, obtido a partir da água, e metanol, a partir da água e dióxido de carbono. Estes compostos são já utilizados em pilhas de combustível, que produzem energia e libertam água, em vez de dióxido de carbono, como sucede com os combustíveis fósseis. A produção de biocombustíveis, como a obtenção de etanol a partir da celulose, é outro caminho em estudo em vários países. 

Síntese de novas moléculas
A necessidade de combater a doença lembra a todos nós a importância de isolar produtos naturais e sintetizar moléculas com propriedades terapêuticas adequadas. O estudo do funcionamento de muitas substâncias no nosso organismo exige muitas vezes a síntese de compostos com estrutura adequada, mais simples, para que o seu comportamento seja comparado com o que se passa no nosso organismo. Quem é capaz de sintetizar os mais variados tipos de moléculas?

Procura de novos catalisadores
Para que as reacções químicas sejam úteis é necessário que sejam tão completas e tão rápidas quanto possível. Na esmagadora maioria dos casos é necessário utilizar catalisadores e a sua descoberta é uma importantíssima tarefa que cabe aos químicos. A cisão da água e a síntese de numerosos compostos, em condições económicas, exige a presença de catalisadores duradouros, que devem ser obtidos a partir de materiais baratos e não poluentes. 

BioQuímica
A interdisciplinaridade entre a Química e a Biologia, isto é, a interação entre químicos e biólogos tem já levado à descoberta e aperfeiçoamento de técnicas para novos modos de estudo dos sistemas biológicos a nível molecular. A disciplina de Biologia Química (Bioquímica), que trata do estudo dos efeitos de pequenas moléculas em processos biológicos, constitui mais uma oportunidade para o trabalho dos químicos. O estabelecimento do genoma humano, determinando a sequência de bases do DNA humano, constituiu um êxito da química, da bioquímica e de disciplinas afins e abriu perspectivas para posteriores trabalhos, nomeadamente na investigação da estrutura e funções de cada proteína. O estudo das relações entre estrutura e função das proteínas é importante para a compreensão das doenças e produção de vários medicamentos. 

A biotecnologia, ou seja, a utilização de agentes biológicos (organismos, células, moléculas e outros) para obter novos produtos ou assegurar serviços é uma importante área da Ciência. O etanol, o biogás, o butanol, a acetona, o glicerol, vários ácidos e enzimas podem ser obtidos por meios biotecnológicos. No meio ambiente, a recuperação de petróleo, o tratamento de lixos e a purificação da água são também possíveis por processos biotecnológicos. Em todos estes processos os químicos podem dar importantes contribuições.


Produtos úteis a partir da biomassa
As biomassas provenientes de fontes renováveis e o carvão eram as matérias-primas mais utilizadas no passado, em especial como fonte de energia, e em certos casos como matéria-prima na indústria. Atualmente, utiliza-se o petróleo e o gás natural, principalmente como combustíveis e, em menor escala, na produção de produtos químicos de base, como etileno, propileno, estireno e muitos outros, necessários para fabricar produtos acabados, como objetos em plástico, pneus, fibras, tintas, vernizes e muitos outros. O grande desafio é voltar a utilizar a biomassa renovável na produção de substâncias úteis, tal como a Química Orgânica faz com o petróleo, com evidentes vantagens ambientais. 

Produção de materiais mais verdes
O século XXI será o século da “química verde”, isto é, de uma química que se baseia em processos de síntese limpos, sem subprodutos prejudiciais ao ambiente, aproveitando os resíduos do presente como matéria-prima do futuro.


Captura do dióxido de carbono
O aumento crescente da porcentagem de dióxido de carbono na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis está a provocar o aquecimento da atmosfera terrestre, causando tremendos problemas climáticos. As florestas são sumidouros naturais, mas a sua capacidade de absorção do dióxido de carbono é insuficiente para evitar o aumento da concentração deste gás na atmosfera. Fala-se em armazenar o dióxido de carbono enviado para a atmosfera em minas abandonadas, mas esta solução faz-nos lembrar “varrer para debaixo do tapete”. Os químicos têm procurado soluções mais eficientes, como a captação de dióxido de carbono na síntese de policarbonatos (compostos carbonados não voláteis).
Um exemplo é a obtenção de um polímero obtido por reação do óxido de limoneno com o dióxido de carbono, na presença de catalisadores especiais. Este trabalho mereceu grande destaque na imprensa, sendo referido como um método de produzir um plástico a partir de cascas de laranja, dado quer o limoneno é um inseticida natural existente na casca dos citrinos. No entanto, deve referir-se que o fato de uma substância ser natural não significa que seja menos nociva que uma sintética. Por exemplo, o inseticida natural rotenona, apesar de ser mais nocivo para as pragas do que para os humanos, é mais tóxico que muitos inseticidas de síntese e foi proibido, em 2005, nos Estados Unidos, Canadá, França e outros países por ser muito tóxico para os peixes e suspeito de estar ligado à doença de Parkinson.

Novos instrumentos científicos
A Química, a Bioquímica e a Biologia utilizam presentemente sofisticadas técnicas analíticas que exigem quantidades muito diminutas de substância e que assentam em princípios desenvolvidos por físicos e aplicados por químicos nos seus trabalhos, como a espectroscopia de ultravioleta, de infravermelho, de fluorescência e Raman, a espectroscopia de absorção atômica, a cromatografia líquida de alta eficiência e de fase gasosa, a ressonância magnética nuclear, a espectrometria de massa e outras. Aqui, também, os químicos terão um papel importante no desenvolvimento das novas técnicas que vão sendo necessárias ao desenvolvimento destas Ciências. Podem, até, exercer funções técnicas e comerciais no lançamento de novos aparelhos e apoio a clientes. 


Satisfação no estudo e ensino da Química
Exposto algumas opções de trabalho de um Químico (químico propriamente dito, bioquímico, farmacêutico ou engenheiro químico), muitos mais poderíamos citar. Acima de tudo, ser químico dá um inimaginável gozo ao ver uma reacção prosseguir, ao descobrir um novo composto, ao ver um produto cristalizar, ao ver uma explosão. Mais…

Ser professor de química é uma profissão encantadora; conviver com a juventude, ensiná-la a observar os fenômenos químicos da Natureza, a interrogá-la, a interpretar as suas respostas e prever novas reações é um desafio constante para quem ensina e aprende. Mais sobre…

Como dizia Bernard Shaw, “a Ciência está sempre errada; nunca resolve um problema sem que seja criado outro”. É este o grande desafio da Química.


* Fonte
Texto adaptado de Carlos Corrêa. Professor Emérito da Universidade do Porto. Conselheiro «Ciência Hoje» para Ano Internacional da Química.
Comentários adicionais: Bruno Leite
Publicado em: Ciência Hoje (Portugal)
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Eneq 2010

21 de julho de 2010 Deixe um comentário

Começou hoje o XV Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ). O ENEQ é um evento bianual organizado pela Divisão de Ensino de Química da Sociedade Brasileira de Química – SBQ desde 1982, e que até 1992 foi realizado em conjunto com a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. A partir da sua edição em 1994 um grande avanço se deu em termos de qualidade da pesquisa na área com a criação da Revista Química Nova na Escola, consolidando a área de Ensino de Química no país e que em 2006 comemorou 25 anos de congregação dos educadores químicos no Brasil.

Este é o principal e mais tradicional evento na área da educação em química realizado no Brasil e articulado em torno dos seguintes objetivos:O Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ) é um evento bianual organizado pela Divisão de Ensino de Química da Sociedade Brasileira de Química – ED/SBQ.

O I ENEQ foi realizado no Instituto de Química da Unicamp, em 1982.

Para se ter ideia da relevância desses Encontros, a Revista Química Nova na Escola –QNEsc – foi proposta em julho de 1994, durante o VII ENEQ, na UFMG. Dirigida a professores dos ensinos médio e fundamental, a cursos de licenciatura e a programas de formação continuada de professores de Química/Ciências, representou mais um significativo passo dado para o fortalecimento da comunidade de pesquisadores em Ensino de Química do nosso país. Comunidade que, em 2006, com a realização do XIII ENEQ, na Unicamp, comemorou 25 anos de congregação em torno do ideal de educar por meio da Química.O ENEQ é o principal e mais tradicional evento na Área de Pesquisa em Ensino de Química realizado no Brasil e articula-se em torno dos seguintes objetivos:congregar professores, pesquisadores, estudantes e demais interessados na área de Educação Química, envolvidos na educação básica e no nível superior, com o ensino e com a formação em Química, promovendo interações, ações e construções para participar de debates em torno dos avanços e dilemas vivenciados na Área;socializar e discutir ideias e produções, na perspectiva da explicitação e da reflexão crítica sobre atuais tendências, concepções e práticas, na Área, com vistas a contribuir na construção de uma nova inserção da formação em Química na sociedade e na tecnologia contemporâneas;intensificar a interlocução de grupos de pesquisa e desenvolvimento atuantes em linhas temáticas da Área da Educação Química, inter-relacionando e alimentando conhecimentos, ações e mudanças junto a comunidades, em âmbitos local, regional e nacional, incrementando e articulando contatos diversificados concernentes a produções científicas socialmente relevantes.Intensificar a interlocução de grupos de pesquisa e desenvolvimento atuantes em linhas temáticas da área da Educação Química, inter-relacionando e alimentando conhecimentos, ações e mudanças junto às comunidades em âmbito local, regional e nacional, incrementando e articulando contatos diversificados concernentes a produções científicas socialmente relevantes.

A partir de tais objetivos, os temas propostos para debate no evento foram:
1. Currículo e Avaliação – CA
2. Ensino e Aprendizagem – EA
3. História e Filosofia da Ciência no Ensino – HC
4. Ensino em espaços não formais – EF
5. Experimentação no Ensino – EX
6. Formação de Professores – FP
7. Linguagem e Cognição – LC
8. Materiais Didáticos – MD
9. Tecnologia da Informação e Comunicação no Ensino – TIC
10. Ensino e Cultura – EC

Em 2010, o XV ENEQ será realizado em Brasília/DF, no período de 21 a 24 de julho de 2010, cabendo à Universidade de Brasília a incumbência de organizá-lo, em parceria com outras IES e com o apoio de diferentes organizações.

Estaremos durante essa semana trazendo algumas postagens sobre o que está acontecendo durante o ENEQ 2010.